"O que soa mal, fora do tom, desafinado. Não só ao ouvido, mas à razão. Isto é o absurdo, estranho som que nos escapa, nós, instrumentos mais fáceis de tocar que uma flauta. A humanidade, orquestrada em dissonância, compõe, a cada instante, os acordes de seus desacordos.
Ao desconserto do homem, o concerto do mundo se cala."
Cito esta pequena reflexão feita por um ex-maestro e compositor, amigo meu já de muito tempo, pois ouço também em mim, com certas variações, formarem-se simultâneas melodias ruidosas. Pulsa-me duas vezes o coração, já seu ritmo se altera descompassado, como se cada batida fosse o anúncio de guerra entre dois exércitos inimigos. Ali, no intermezzo silencioso, marcho sem paz nem bandeira. Cantos belicosos, compostos em línguas intraduzíveis entre si, digladiam-se em meus ouvidos. Minha voz e minha língua são as mortes desta guerra interna, que seleciona e glorifica as palavras que cedo ao ar. Mas falar é lutar contra o vento para sermos ou não compreendidos.
Aqui, em mim, eu marcho. Não compreendo os ritmos de meus pés, nem os tortuosos caminhos que tomam, entre as trevas sonoras da razão e do coração, estes dois diapasões com que ajusto as tensões de minhas notas.
O absurdo maior é a discussão entre estes dois nadas. No escuro, tento conversar comigo. Mas o mudo ensina ao surdo lições de complacência?
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